Nascia em 28 de janeiro de 1911 em Cacimbinhas, atual Pinheiro Machado - RS, Manoel Oscires Farias Lobato.
Filho José Bernadino Lobato e Emília Farias Lobato, viveu sua infância e juventude entre Cacimbinhas onde a família tinha Comércio e no Cerro Alegre, situado no meio do caminho entre Cacimbinhas e Piratini onde a família além de um pedaço de campo possuía também uma tradicional Casa Comercial.
Foi no histórico Cerro Alegre que começam suas primeiras vivências, tropeiros, viajantes, guerreiros e outros tantos cruzavam dos quatro quadrantes, fazendo parada certa no Comércio dos Lobato que oferecia utensílios de toda espécie, do tecido ao arreio, cimento em barricas, madeira, gasolina em lata, secos e molhados, refeições, hospedagem assim como também pastagem para tropas, estrebaria para cavalos e parada de Diligências de linha. Neste ambiente Oscires Lobato pôde desde bem jovem ver e ouvir os mais diversos tipos de gente e suas histórias, o que mais tarde viria a se tornar uma marca de sua personalidade o dom e o prazer de contar causos do passado.
Aos doze anos durante a Revolução de 23, ajudou a defender a casa da família contra as investidas de guerreiros desgarrados de piquetes tanto maragatos (Libertadores) quanto chimangos (Republicanos), contava Oscires Lobato que por várias ocasiões apareciam grupos de guerreiros à noite, quando a casa já estava fechada, obrigando-os a atender por uma janela as insistentes batidas, enquanto o pai e o irmão mais velho Oscar atendiam, os outros moradores da casa cobriam armados a retaguarda. Na maioria das vezes eram guerreiros querendo bebidas e tabaco, era comum cortarem a cola e crinas dos cavalo para fazerem troca por esses produtos.
Contava também que haviam os "Piquetes de Revista", estes entravam sem pedir e revistavam a casa procurando armas, ponchos, cavalos e o que precisassem, o que obrigava-os a esconder algumas mercadorias como as excassas Capas Renner no forro da casa e os cavalos e animais de valor da família em improvisadas mangueiras escondidas em matos próximos.
Em uma ocasião um grupo entrou na casa para uma revista, havia um cavalo escondido na dispensa da casa, todos da família ficaram na expectativa já que o cavalo um ótimo "pingo" (montaria do dono da casa), seria descoberto e levado pelos guerreiros, um dos soldados entrou na peça e viu o animal, ao sair comunicou aos seus companheiros que ali não havia nada, o que surpreendeu a todos da família, e ao retirar-se da casa bateu gentilmente no ombro do Velho Lobato. Por anos a família desconheceu os motivos que levaram aquele jovem guerreiro a não revelar o animal escondido, arriscando sua própria vida. Anos depois o soldado volta ao Cerro Alegre, relembra o fato e revela ser da região, além de ser filho de família amiga dos Lobato.
Na Revolução de 1932 no Combate do Cerro Alegre, Borges de Medeiros foi preso a poucos metros da Casa Lobato, em seguida a escolta dirigiu-se a este local, onde foi servido uma refeição ao lider Repúblicano e a escolta que o conduzia antes de partirem para a Capital Porto Alegre. Oscires Lobato estava lá com seus pais e irmãos que eram 11. Durante toda a sua vida lembrava e gostava de contar sobre esse dia histórico que havia vivido, assim como de outros tantos que marcaram sua juventude.
No balcão do Cerro Alegre, Lobato aprendeu a arte do comércio e a ter tudo na ponta do lápis, a experiência lhe despertou uma grande capacidade para os números e para fazer cálculos matemáticos, o que ajudou na sua vida profissional.
Em determinado momento o jovem Oscires Lobato teve a oportunidade de saír de trás do balcão e trabalhar como representante da Casa pelo interior, vendendo de amostras como se dizia, seu pai lhe deu um revólver para defesa e um cavalo amilhado em estrebaria. A experiência de andar viajando de um lado para o outro no lombo de um cavalo buscando novos negócios abríu-le os horizontes. E foi nessas andanças pelo interior de Cacimbinhas, Piratini e Canguçu, que por conta própria começou a negociar ovelhas, bois e cavalos.
Pouco tempo depois Lobato passou a dedicar-se exclusivamente a compra e venda gado. Passa a arrendar campos e invernar bois.
Em 1938 casa-se com Jacy Freitas Dias, nat. de Cacimbinhas, filha de Antônio José Dias e Maria Francisca Freitas Dias. O casal passa a residir em Cacimbinhas e Lobato arrenda uma Fazenda a da Tuna no Candiotinha, interior do município.
Em 26 de setembro de 1940 em Cacimbinhas nasce a única filha do casal, Luiza Maria Dias Lobato.
Os negócios iam bem para Lobato quando estoura a II Guerra Mundial, a incerteza de poder saldar os compromissos assumidos o assustam, fazendo-o procurar um velho amigo e gerente do Banco da Província, o amigo o tranquiliza e aconselha-o que produza muita carne e lã, pois com a guerra os preços desses produtos se elevariam muito.
O que aconteceu foi que Oscires Lobato era um trabalhador incansável, em poucos anos adquiriu terras e arrendou mais outras tantas, além disso investiu na produção de sua propriedade, buscou inovações de aprimoramento genético, foi um dos pioneiros na inseminação de ovinos, importou carneiros para o melhoramento dos rebanhos e consequentemente uma melhor qualidade de lã. Na pecuária de Corte experimentou novas raças e foi um dos introdutores de animais de raças zebuinas na região e da cruza deste com os de raças européias buscando uma maior precocidade.
Lobato progrediu e construíu um bom patrimônio com o suor de seu trabalho ao lado de sua companheira Jacy, mas como todo o homem de negócios que paga suas contas teve seus altos e baixos. Sem nunca se abater recomeçava tudo de novo.
Fez na vida o que mais gostava , estar ao lado da família, viver entre a cidade e a campanha negociando, criando gado, ovelhas e cavalos.
Os frutos de seu trabalho sempre foram
reinvestidos e aplicados no conforto e qualidade de vida da sua
família para a qual dedicou-se toda uma
vida.
Pessoa de espírito elevado ficou conhecido por
todas a regiões em que passou por sua bondade, simpatia, educação e
por muitas amizades cultivadas. Sempre tratou funcionários como
iguais e em suas propriedades preservava a natureza, não era a
favor de caçadas e jamais permitiu maus tratos aos
animais.
Rodou do Cerro Alegre ao Curral de Pedras, Candiota, Pedras Altas, Arroio Grande, Restinga, novamente Pedras Altas e Pelotas onde mantinha residência.
Viveu uma vida feliz ao lado de sua esposa, filha, genro e os três netos aos quais era muito "agarrado" deixando grandes ensinamentos e boas lembranças.
Sua maior herança deixada foi o seu próprio exemplo de pessoa, seu amor à família a terra e o trabalho.
texto: Rodrigo Lobato Schlee / fotos: acervo família Lobato
Oscires Lobato (de pé à esquerda) ao lado de seus cunhados os irmãos Dias, e ao centro Cap. Esteves o "chasque" dos Freitas Dias, ex-combatente e homem de confiança da família, transportava mensagens e valores de uma Estância para outra do outro lado da fronteira, conta-se que anoitecia em Pedras Altas e amanhecia em Rincón Chico, Cerro Largo no Uruguai, viajando a noite toda e sempre a galope, trocando de cavalo no Passo do San Diogo na fronteira com o Uruguai onde um conhecido guardava a sua outra montaria descansada para continuar a viagem. Local : Praça Argelino Goulart, Pinheiro Machado. Início dos anos 40.
|